Existe uma lei estadual, sancionada em 20 de junho de 2003, que transformou um hábito centenário em símbolo oficial do Rio Grande do Sul. A norma instituiu o churrasco à gaúcha como prato típico e o chimarrão como bebida símbolo do estado. Ela não criou a tradição apenas deu nome jurídico ao que já estava enraizado na rotina de milhares de famílias gaúchas.
Antes da lei, havia séculos de formação. O churrasco surgiu em meados do século XVII na região do Pampa, território que hoje compreende Rio Grande do Sul, Uruguai e norte da Argentina. Não nasceu de um decreto nem de um único povo: foi moldado entre indígenas, tropeiros e estancieiros, ao longo de gerações, até se tornar o maior símbolo gastronômico do Sul do Brasil.
Entender esse percurso explica por que, hoje, montar um espaço de churrasco no RS costuma ser tratado com tanto cuidado. Não é só sobre cozinhar é sobre dar continuidade a algo que o próprio estado reconhece formalmente.
As raízes do churrasco gaúcho
A prática remonta aos tropeiros, que assavam a carne em fogo de chão influenciados pelos povos indígenas da região do Pampa, salgando a carne com o suor do transporte sobre o lombo do cavalo. Isso ocorria próximo à região dos Sete Povos das Missões, no Oeste gaúcho, onde missões jesuíticas catequizavam principalmente os guaranis.
Na época, o couro e o sebo do gado eram mais valorizados que a própria carne. Quando o gado era abatido nas vacarias, o vaqueiro assava um grande pedaço atravessado por uma vara fincada no chão; o restante secava à sombra, salgado pelo suor do animal dando origem ao charque. Com o tempo, o tempero virou sal grosso e os cortes foram se refinando, a base técnica do churrasco que conhecemos hoje.
2003: o ano em que o churrasco ganhou status oficial
A Lei nº 11.929 instituiu o churrasco à gaúcha como prato típico e o chimarrão como bebida símbolo do Rio Grande do Sul, criando também o Dia do Churrasco e do Chimarrão. A data escolhida, 24 de abril, homenageia a fundação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35º CTG, criado em 1948 por oito estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, entre eles João Carlos Paixão Côrtes, nome ligado à própria estátua do Laçador em Porto Alegre.
Lagoa vermelha: a capital que nasceu dessa tradição
Em 2019, Lagoa Vermelha recebeu o título de Capital Gaúcha do Churrasco por lei estadual e, no mesmo ano, o título federal de Capital Nacional do Churrasco, sancionado pela Presidência da República. O reconhecimento tem relação direta com a Festa Nacional do Churrasco, realizada desde 1983 na cidade, prova de que a cultura do churrasco no RS segue gerando capítulos legais novos.
O que essa história ensina sobre o jeito gaúcho de tratar o fogo
A legislação formalizou algo que o gaúcho já vivia na prática: o churrasco como rito de comensalidade, não apenas refeição. Estudos sobre o tema descrevem o churrasco gaúcho como prática central na hospitalidade brasileira, funcionando como espaço simbólico de socialização, coletividade e pertencimento.
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